Kepa Junkera

Kepa-JunkeraO maior embaixador da música basca e mestre da trikitixa Kepa Junkera vem a Ponte da Barca apresentar o seu mais recente álbum», «Galiza», uma declaração de amor à cultura desta região e às trocas entre a Galiza e o País Basco.

O que é que primeiro o apaixonou na música tradicional basca? E, também, por um instrumento emblemático da música tradicional basca como a trikitixa?
O meu avô tocava pandeireta, que é o instrumento acompanhante da trikitixa na nossa música popular. A minha mãe dançava ritmos tradicionais e também tocava pandeireta. Por isso, pude escutar os ritmos da trikitixa em minha casa logo em criança. Depois, como autodidacta, comecei a estudar a trikitixa, que é um acordeão diatónico, um instrumento muito semelhante à concertina. Gostei muito de o fazer porque é uma música muito alegre, muito rítmica, que eu senti muito como minha. Acho que esse gosto veio da minha família, desde há gerações…

Qual é a origem da trikitixa? É um instrumento nascido no País Basco ou foi importado e adoptado pelos bascos como seu instrumento nacional?
A trikitixa veio de fora, de Itália, e entrou no País Basco no final do Séc. XIX ou início do Séc. XX. E foi adoptada pelos bascos, principalmente na Biscaia, em Bilbau. É um instrumento relativamente jovem, se comparado com outros instrumentos tradicionais bascos como a alboka, a txalaparta ou mesmo as pandeiretas.

Ao longo da sua carreira – que já conta com mais de vinte álbuns – tem dividido o seu reportório entre muitos temas originais compostos por si e muitos temas de música tradicional que interpreta à sua maneira. Enquanto músico (e compositor) que desafios oferecem cada uma dessas diferentes opções?
A maioria dos temas que gravei fui eu que os compus. E, quando componho, não me inspiro apenas na música tradicional do meu país mas também em muitas outras influências. A música tradicional é aquilo que recebemos e que já foi trabalhado por muitas gerações diferentes. Também gosto muito de tocar música tradicional – principalmente a música popular basca — mas agrada-me, sobretudo, fazer a minha própria música.

Ao longo deste percurso, já tocou com dezenas de músicos de variadíssimos países e géneros musicais. A música é mesmo uma linguagem universal?
Sim, tive a sorte – ao longo de todo este percurso – de tocar e partilhar experiências com muitos amigos, com grandes músicos que eu admiro. Grandes instrumentistas que, em muitos casos, têm também uma linguagem muito pessoal. É maravilhoso ter tocado com tanta gente diferente e ter verificado, tantas vezes, que a música – e por muito diferentes que sejam as origens dos músicos – é algo que se pode partilhar, com que se pode comunicar. Por muito diferentes que sejam as nossas culturas há também muitas raízes comuns e essa descoberta é emocionante, também.

Que memórias guarda do seu trabalho com Júlio Pereira, que gravou consigo o álbum «Lau Eskutara» (1995) e de Dulce Pontes que colaborou no seu álbum «Bilbao 00:00 h» (1998)?
Eu admiro muito a cultura portuguesa. E eu já era admirador do Júlio Pereira quando o conheci. Gostava muito, essencialmente, do seu pulsar rítmico. Foi um grande prazer e tive um grande orgulho em gravar esse disco com ele. Dulce Pontes tem uma voz maravilhosa e é uma das mulheres que melhor transmite o sentimento português. Também tive a sorte de já me ter cruzado ou ter colaborado com outros cantores e músicos portugueses como o mestre António Chaínho, a Teresa Salgueiro, a Mafalda Arnauth, o Tito Paris – que é cabo-verdiano mas vive em Portugal –, João Afonso, Filipa Pais… Muitíssimos músicos portugueses. Também admiro muito o António Zambujo e, claro, o quarteto de concertinas portuguesas Danças Ocultas, do Artur Fernandes, que me encantam.

Antes de ter gravado o álbum «Galiza», editado o ano passado, já tinha colaborado com músicos galegos como Xosé Manuel Budiño ou Carlos Núñez. O que é que o levou a editar um duplo-álbum de colaboração com inúmeros (mais de 200?) músicos galegos e em que a música basca e a música galega convivem de forma tão intensa – e apesar de já ter havido experiências anteriores — pela primeira vez?
Os povos da Galiza e do País Basco – assim como da Cantábria e das Astúrias – são povos irmãos. Todos partilhamos o Atlântico e temos, historicamente, muitas trocas e pontos de contacto. Na música também é assim: a Galiza e o País Basco têm muitos ritmos parecidos, muitas harmonias e melodias semelhantes. E, mesmo quando há diferenças, é possível conciliá-los. Este disco é uma homenagem a um povo e a uma cultura que admiro. Eu já era amigo de muitos músicos galegos com quem tinha partilhado o palco ou os estúdios e este disco foi uma oportunidade maravilhosa de tocar com muitos outros, incluindo nos ritmos e melodias da Galiza o meu «filtro» da trikitixa e das txalapartas. Estou muito orgulhoso da generosidade de todos os participantes, de todos os músicos galegos que tornaram este disco possível. Em palco não estarão, claro, todos os músicos com quem toquei, mas está um grupo em que há lugar para muita improvisação e muitas trocas entre os músicos bascos e os músicos galegos que me acompanham.

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s