Milladoiro

MILLADOIROMítico, entre os mais míticos, grupos galegos que recuperaram a memória da música tradicional dita celta nesta região, os Milladoiro vêm a Ponte da Barca mostrar uma arte que já leva quase quarenta anos de História.

Cruzando-se com inúmeros grupos e artistas de outras tradições irmãs, desde 1978, os Milladoiro – cujo nome remete para a lenda e as práticas (actuais e não lendárias, apesar de a essa lenda se remeterem) do Caminho de Santiago – têm sido os principais embaixadores – ao lado dos Luar na Lubre, Berroguetto e outros – de uma música que vive, sobretudo, das raízes que nos alimentam e ensinam e de umas antenas que nos iluminam novos caminhos, os de Santiago ou muitos outros.

Ao longo de quase quarenta anos, os Milladoiro – com o seu acervo de canções tradicionais e preservando de forma viva a forma de tocar instrumentos como a gaita galega, as pandeiretas, as flautas, as sanfonas e os pandeiros… — mas usando também os bouzoukis, os bodhrans e muitos outros instrumentos que a tradição galega recebeu, protegeu e acarinhou – são um dos maiores, se não o maior, exemplo de como uma tradição musical pode permanecer viva e actual em pleno Séc. XXI.

No seu último álbum, «A Quinta das Lágrimas» (editado em 2008), os Milladoiro ligam, intimamente, a Galiza a Portugal. Há canções medievais galaico-portuguesas, há a Lenda/História de D.Pedro e D.Inês – o rei português e a rainha (coroada post-mortem) galega! –, há poesia de Luís Vaz de Camões (que ilustra essa História, no seu quarto canto de «Os Lusíadas»), há poesia de Fernando Pessoa («Mar Português», de «A Mensagem», em que os Milladoiro tocam para Mafalda Arnauth cantar, num fado que nos une ainda mais, nós portugueses e também nós galegos) e há o «Venham Mais Cinco», de José Afonso, declaração de amor e amizade à solidariedade entre os iguais, sejam do lado de cá desta fronteira fictícia (entre Portugal e Galiza) sejam de outra fronteira qualquer. José Afonso, que desde sempre, fez e desenhou o maior e mais indelével – musicalmente, entenda-se – traço de união entre os nossos dois povos, Portugal e Galiza. Sejam bem-vindos.

Há muitos anos, Rodrigo Romani, da primeira formação dos Milladoiro, disse numa entrevista a uma publicação inglesa: «Nós queremos fazer o mesmo (pela música galega) que os Chieftains fizeram pela música irlandesa ou o Alan Stivell com a música bretã». Ao fim deste tempo, deste tempo todo, podemos dizer que o conseguiram (ou ainda mais). São um exemplo e um espelho e um «caminho» a seguir (tal como o de Santiago).

Para além dos temas tradicionais galegos e dos seus temas originais – e todos eles devedores da sua tradição galega (à mistura com algumas outras) – , os Milladoiro também interpretam temas tradicionais com os quais se sentem, naturalmente, identificados, da música irlandesa, escocesa ou da Bretanha. Numa crença unitária e identitária, os Milladoiro partilham a ideia – comum a outros povos – de que existe mesmo uma «irmandade celta» que une historicamente, culturalmente e musicalmente todos os povos «celtas». Muitos destes povos aspiram, desde há muitos séculos, à independência (a Escócia e a Irlanda ocupada por Inglaterra são os mais óbvios mas também há fortes movimentos independentistas na Galiza, nas Astúrias ou, do outro lado da fronteira, em França, na Bretanha). Hoje, com a chegada de Filipe VI ao trono de Espanha, diz-se que a sua maior batalha vai ser tentar manter a Espanha unida. Os povos da actual Espanha hão-de um dia responder. E nestes, como porta-vozes da Galiza, os Milladoiro serão dos primeiros.

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